Carnaval 2026: ancestralidade, espiritualidade e a força coletiva dos enredos que ressoam além da avenida (16)
No palco maior da cultura popular brasileira, o Carnaval não é apenas festa é uma expressão profunda de identidade, ancestralidade e espiritualidade que reverbera pelas arquibancadas do Sambódromo e pelas ruas das cidades. Em 2026, os enredos apresentados pelas escolas de samba do País voltam a demonstrar essa dimensão que vai muito além da música e do espetáculo visual.

Enredos como narrativas de ancestralidade
Os temas escolhidos pelas agremiações para seus desfiles este ano revelam um movimento forte de retorno às raízes culturais e espirituais. Entre os enredos do Carnaval do Rio de Janeiro, por exemplo, a Mangueira evocou a figura de Mestre Sacacá, curandeiro ancestral da Amazônia Negra, ressaltando a sabedoria tradicional e a importância da preservação cultural e ecológica da floresta. Outro exemplo é a Portela, que trouxe uma narrativa em torno de Custódio Joaquim de Almeida, líder religioso afro-brasileiro temas que resgatam histórias de resistência e espiritualidade afrodescendente.
Essa tendência de enredos afrocentrados, ligados à ancestralidade e às tradições espirituais de matriz africana, tem sido observada com destaque por especialistas no Carnaval. Segundo o historiador Paulo Alcantara, a Marquês de Sapucaí vive um momento de afirmação do protagonismo negro nas escolhas temáticas um processo que representa mais do que estética, mas sim uma reconexão com as origens culturais que moldaram a identidade brasileira.

Espiritualidade, ritmo e o “ebó coletivo” da bateria
No Carnaval, o ritmo não é mera trilha sonora: ele carrega significados ancestrais. A música da bateria, cujos aspectos e hierarquia refletem tradições que dialogam com práticas rituais afro-brasileiras, cria um campo energético coletivo que enlouquece o corpo e a alma dos foliões um verdadeiro ebó coletivo que ressoa ao longo da avenida.

Essa conexão com a espiritualidade está presente tanto na maneira como o samba é executado quanto na forma como multidões inteiras se unem em dança e canto. Para muitos participantes, essa experiência é comparável a um transe ritualístico, onde ritmo, corpo e energia se fundem em celebração e comunhão uma celebração que remete às tradições dos terreiros de candomblé e umbanda.
Carnaval como resistência e identidade
O Carnaval brasileiro carrega também um peso histórico de resistência cultural. Suas raízes estão intrinsecamente ligadas às comunidades afro-brasileiras e aos saberes que sobreviveram à diáspora e aos séculos de opressão, transformando-se numa das maiores expressões de identidade popular no mundo.
Mais do que festas e competições, os desfiles das escolas de samba são espaços vivos de coletividade, memória e ancestralidade onde cada ala, cada bateria e cada canto conta uma história, evoca um ancestral e reforça um legado que continua pulsando nas ruas e no coração dos brasileiros.
Matéria: Nathalia Dias
Jornalista responsável: Edinho Meirelys
Foto: Nathalia Dias
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