Carnaval

QUANDO A ANCESTRALIDADE VOLTOU PARA O CENTRO DA AVENIDA

Por Redação

Da história oficial aos quilombos, dos heróis negros aos orixás: como o Carnaval carioca foi ampliando o espaço para contar histórias que durante muito tempo ficaram à margem.

Série Especial — Ancestralidade na Avenida | Samba Conexão News

Durante décadas, a Marquês de Sapucaí foi palco de grandes histórias.

Reis, imperadores, batalhas, personagens da política, episódios da formação do Brasil e símbolos da chamada história oficial desfilaram diante do público carioca.

Mas havia uma pergunta que, pouco a pouco, começou a ganhar força dentro das escolas de samba:

E a história daqueles que também construíram o Brasil?

A história dos negros escravizados e libertos.
A história dos quilombos.
A história dos terreiros.
A história das comunidades negras.
A história da África e de seus descendentes no Brasil.
A história dos orixás, das festas, da religiosidade e das tradições que sobreviveram apesar de séculos de perseguição.

A ancestralidade africana nunca esteve ausente do samba.

Ela estava na música, no corpo, na roda, nos instrumentos, na oralidade, nos terreiros, nas comunidades e nas próprias origens das manifestações que deram forma ao samba carioca.

O que mudou foi outra coisa:

a ancestralidade começou a ocupar, cada vez mais, o centro da narrativa que o Carnaval apresentava ao Brasil.

ANTES DE SER ENREDO, JÁ ERA RAIZ

O próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reconhece que as matrizes do samba carioca — partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo — carregam um legado africano fundamental.

Em 2007, essas manifestações foram registradas como Patrimônio Cultural do Brasil, no Livro de Registro das Formas de Expressão. O reconhecimento foi revalidado em 2025.

O dossiê do Iphan aponta a presença de tradições africanas na formação do samba e registra a importância de espaços como rodas, quintais, terreiros e comunidades na transmissão desse conhecimento.

Ou seja: muito antes de um orixá aparecer como personagem central de um grande desfile, a cultura africana já estava ajudando a construir o próprio samba.

Essa é uma das grandes contradições da história:

a cultura negra estava na origem da manifestação, mas nem sempre estava no centro das histórias contadas por ela.

QUANDO A AVENIDA CONTAVA A HISTÓRIA OFICIAL

Durante parte do século XX, especialmente sob a influência do nacionalismo da Era Vargas, os enredos que apresentavam episódios e personagens da história oficial encontravam espaço privilegiado.

Temas ligados à formação do Estado brasileiro, militares, políticos e personagens consagrados pela historiografia tradicional apareceram com frequência.

Segundo levantamento da MultiRio, somente a partir da década de 1950 as referências à cultura afro-brasileira começaram a ganhar maior presença nos enredos, movimento que se aprofundaria na década seguinte. (MultiRio⁠)

E foi justamente aí que uma escola ajudaria a mudar a história.

SALGUEIRO: UMA MUDANÇA DE ROTA

No Carnaval de 1960, o Acadêmicos do Salgueiro levou para a avenida “Quilombo dos Palmares”, com destaque para Zumbi.

O trabalho de Fernando Pamplona e de sua equipe representou uma mudança importante na escolha dos temas e na maneira de apresentá-los.

O próprio dossiê do Iphan aponta que, com enredos inspirados em personagens e na cultura afro-brasileira, o Salgueiro marcou uma mudança nos desfiles.

Depois vieram outros trabalhos emblemáticos, como “Xica da Silva” (1963), “Chico-Rei” (1964) e “Bahia de Todos os Deuses” (1969). (IPHAN⁠)

Não era apenas uma mudança estética.

Era também uma mudança sobre quem poderia ser protagonista da história contada na avenida.

Zumbi passou a ser personagem de samba-enredo.

Chica da Silva ganhou a avenida.

Chico-Rei ganhou voz.

A África e a experiência negra passaram a ocupar um espaço que, anteriormente, era muito mais restrito.

Pesquisas acadêmicas sobre o período identificam esse processo como parte da chamada “revolução salgueirense”, destacando a importância da escola na introdução e ampliação de temáticas afro-brasileiras nos desfiles. (SciELO⁠)

NÃO FOI UMA MUDANÇA DE UMA ÚNICA ESCOLA

É importante não transformar essa história em uma narrativa na qual apenas uma agremiação teria sido responsável por tudo.

Outras escolas também levaram questões negras para a avenida.

A Unidos da Tijuca apresentou “Casa Grande e Senzala”, em 1961.

A Mangueira levou “História de um Preto Velho”, em 1964.

A presença dessas narrativas mostra que a temática negra estava ganhando espaço de maneira mais ampla no Carnaval carioca. (EduCAPES⁠)

A avenida começava, pouco a pouco, a olhar para outras partes do Brasil.

E, principalmente, para outros brasileiros.

A RELIGIÃO TAMBÉM COMEÇOU A ROMPER BARREIRAS

Falar de ancestralidade é também falar de fé.

E aqui a história fica ainda mais complexa.

As religiões de matriz africana sempre fizeram parte do universo cultural que cercava o samba. Entretanto, transformar elementos religiosos em narrativa central de um desfile significava colocar na avenida símbolos que, durante muito tempo, foram alvo de preconceito e perseguição.

O próprio estudo do Iphan sobre as matrizes do samba registra a religiosidade como um dos elementos que compõem essa tradição cultural. (Biblioteca Digital⁠)

Por isso, quando um desfile apresenta orixás, terreiros, sacerdotes, mitologias africanas ou referências ao Candomblé e à Umbanda, não estamos diante de algo completamente separado da história do samba.

Estamos diante de uma manifestação que, em muitos casos, retorna às próprias raízes culturais que ajudaram a formar o samba.

1989: QUANDO A AVENIDA QUESTIONOU ATÉ O SAGRADO

E existe um episódio que merece entrar nessa história como um importante capítulo sobre os limites da representação no Carnaval.

Em 1989, a Beija-Flor de Nilópolis levou para a avenida o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, de Joãosinho Trinta.

A proposta era uma crítica à pobreza, à desigualdade e à realidade social brasileira.

No abre-alas, Joãosinho Trinta pretendia apresentar uma reprodução do Cristo Redentor vestido como mendigo.

A Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu uma ordem judicial impedindo a apresentação da imagem daquela maneira.

A solução encontrada pelo carnavalesco foi cobrir a alegoria com plástico preto e colocar uma faixa com a frase:

“Mesmo proibido, olhai por nós.”

A imagem se tornou um dos registros mais marcantes daquele Carnaval. (SciELO⁠)

É importante fazer uma distinção:

o Cristo Mendigo não era uma representação de ancestralidade afro-brasileira.

Mas aquele episódio ajuda a compreender uma transformação maior.

A avenida estava se tornando um espaço cada vez mais disposto a questionar símbolos, narrativas, autoridades e os limites daquilo que poderia ser representado.

O Carnaval estava dizendo, à sua maneira, que a avenida também poderia ser lugar de debate.

DA HISTÓRIA NEGRA À ANCESTRALIDADE

Com o passar das décadas, o processo ganhou novas dimensões.

Não se tratava mais apenas de contar a história da escravidão.

Era possível falar de reis e rainhas africanos.

De povos africanos.

De quilombos.

De heróis negros.

De mulheres negras.

De cultura.

De religiosidade.

De identidade.

De resistência.

De África.

De diáspora.

E, cada vez mais, de ancestralidade.

Essa mudança também aconteceu dentro de um Brasil que passava por transformações sociais, culturais e educacionais.

Em 2003, a Lei nº 10.639 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, incluindo conteúdos sobre a história da África, a luta da população negra no Brasil, a cultura negra brasileira e a participação do negro na formação da sociedade nacional. (Planalto⁠)

A lei não explica sozinha o que acontece nos desfiles.

Mas ela faz parte de um processo maior de reconhecimento e valorização da história e da cultura afro-brasileira.

O SAMBA PASSOU A CONTAR OUTRAS HISTÓRIAS

Talvez essa seja a grande transformação.

Durante muito tempo, o Carnaval foi acusado de transformar história em espetáculo.

Mas o espetáculo também pode fazer uma coisa poderosa:

colocar uma história diante de milhões de pessoas.

Uma criança que nunca ouviu falar de determinado personagem pode conhecê-lo através de um samba.

Uma comunidade pode reencontrar sua história em uma alegoria.

Um ancestral pode voltar a ser lembrado.

Uma tradição pode deixar de ser vista apenas como folclore e passar a ser compreendida como patrimônio.

O Iphan define as Matrizes do Samba no Rio como formas de expressão, modos de socialização e referências de pertencimento, destacando seu legado africano. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

É justamente aí que a avenida ultrapassa o desfile.

Ela se transforma em memória.

A ANCESTRALIDADE NÃO VOLTOU. ELA NUNCA FOI EMBORA.

Talvez o título desta reportagem provoque uma reflexão.

Quando a ancestralidade voltou para o centro da avenida?

A resposta mais honesta talvez seja:

ela nunca saiu completamente.

Ela estava na batida do tambor.

Na roda.

Na dança.

No terreiro.

Na comunidade.

Na oralidade.

Nas mãos dos mais velhos.

Na transmissão de conhecimento.

Nos nomes que muitas vezes não foram registrados pelos livros oficiais.

O que aconteceu foi que, em determinados momentos da história do Carnaval, essa ancestralidade passou a ser mais explicitamente reconhecida, narrada e visualizada no centro dos desfiles.

E essa diferença é fundamental.

Porque o samba não descobriu a África.

O samba sempre carregou África dentro de si.

O que mudou foi a disposição de olhar para essa origem, reconhecê-la e colocá-la diante do país inteiro.

A AVENIDA COMO LUGAR DE MEMÓRIA

Em 2025, o Iphan recebeu oficialmente o pedido para registrar os desfiles das escolas de samba da Marquês de Sapucaí como Patrimônio Cultural do Brasil.

Na ocasião, o instituto destacou que os desfiles contam histórias de pessoas, lugares e memórias, inclusive histórias que foram esquecidas ou apagadas. (Serviços e Informações do Brasil⁠)

Essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender o papel que o Carnaval passou a exercer.

A avenida não é apenas um lugar onde escolas disputam notas.

É também um lugar onde o Brasil se apresenta a si mesmo.

E, quando uma escola coloca sua ancestralidade no centro do desfile, ela não está apenas falando do passado.

Está dizendo:

“Nós também fazemos parte da história que este país escolheu contar.”

E talvez seja justamente por isso que o Carnaval continue sendo muito maior do que uma festa.

Ele é música.

É espetáculo.

É disputa.

É identidade.

É memória.

É resistência.

É cultura.

E, acima de tudo, é uma avenida onde diferentes histórias continuam disputando o direito de serem lembradas.
Matéria: Edinho Meirelys

Foto: reprodução

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