*Viradouro aposta na força da ancestralidade e do Griô em samba-enredo de grande potência poética para 2027*
O samba-enredo da Unidos do Viradouro para o Carnaval de 2027 é assinado pela parceria formada por Mocotó, Paulo César Feital, Inácio Rios, Igor Federal, Deja, Romério Duarte, André Quintanilha, Chanel, Ronilson Fernandes e Marcio André Filho.

O enredo aborda a ancestralidade, a oralidade e a figura do Griô, guardião das histórias e das memórias na tradição africana.
A composição apresenta forte essência poética e profundo alinhamento com a proposta do enredo, apostando em uma construção literária densa e de grande potência cultural. A letra busca remeter ao universo afrodescendente e abre a narrativa com imagens marcantes do terreiro e do axé: “Agô, bate palma de macumba para saudar o dono da rua, vira o corpo no terreiro”.
A valorização da mitologia e da figura do Griô também aparece de maneira significativa, com passagens de grande lirismo que remetem à criação e ao saber ancestral. É o caso do trecho “Quando Anansé bordou os fios de prata / colocou na cabaça o dom do saber”, que eleva a palavra falada à condição de instrumento de preservação da memória e de resistência ao esquecimento.
No refrão final está um dos momentos de maior força identitária da obra: “Ô ziri ziri namu, Kouyaté / Ô, a Viradouro é sangue de Griô”. O trecho reúne a comunidade em um canto de fácil assimilação e forte potencial de impacto na Avenida, reforçando a identificação da escola com a ancestralidade apresentada pelo enredo.
Melodia e construção musical
A melodia apresenta dinamismo e fluidez, com uma construção que favorece a evolução do desfile. A composição alterna momentos de narrativa envolvente nas estrofes com maior intensidade rítmica nos refrães, criando uma progressão que contribui para a dinâmica do samba na Avenida.
A sequência harmônica e o desenho melódico também favorecem a condução do carro de som e o diálogo com a bateria, criando condições para um canto coletivo de maior intensidade por parte dos componentes.
Essa característica contribui para que o samba cumpra uma das principais funções de uma composição carnavalesca: estabelecer uma conexão entre a narrativa do enredo e a participação da comunidade. A estrutura musical facilita a assimilação dos versos e dos refrães, favorecendo a interação entre intérprete, bateria e componentes.
O resultado é uma composição que procura conciliar densidade poética e funcionalidade carnavalesca. A letra apresenta os elementos fundamentais do enredo, enquanto a melodia oferece recursos para transformá-los em experiência coletiva na Avenida.
Dessa forma, o samba se apresenta como uma leitura musical do enredo, aproximando ancestralidade, memória, oralidade e identidade em uma construção que busca potencializar tanto a compreensão da proposta da escola quanto a participação de sua comunidade no desfile.
Foto: reprodução