Escolas de samba transformam enredos em instrumentos de valorização das matrizes africanas
Carnaval vai além da festa e se consolida como espaço de memória, resistência e afirmação da cultura afro-brasileira
Muito além do brilho das fantasias e do ritmo contagiante do samba, os desfiles das escolas de samba têm se firmado como importantes plataformas de valorização dos povos de matrizes africanas no Brasil. Ao longo dos anos, enredos que exaltam a ancestralidade africana, os orixás, a história da diáspora e a resistência negra vêm ocupando lugar de destaque na Avenida, reforçando o papel do Carnaval como expressão cultural, política e social.
As escolas de samba, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, utilizam seus enredos para contar histórias que durante muito tempo foram invisibilizadas nos livros e nos espaços oficiais de memória. Narrativas sobre a escravidão, a luta por liberdade, a religiosidade de matriz africana e a contribuição do povo negro para a formação do país ganham vida por meio de carros alegóricos, alas coreografadas e sambas-enredo que emocionam o público.
Enredos como “Kizomba, a festa da raça”, da Vila Isabel, em 1988, ou “História para ninar gente grande”, da Mangueira, em 2019, são exemplos marcantes de como o Carnaval pode assumir um papel educativo e crítico. Ao abordar o protagonismo negro e questionar versões oficiais da história brasileira, essas escolas ampliam o debate sobre identidade, racismo e pertencimento.

Além da história, a religiosidade africana também aparece com força nos desfiles. O culto aos orixás, os símbolos do candomblé e da umbanda e os saberes ancestrais são apresentados com respeito e profundidade, contribuindo para combater a intolerância religiosa. Para muitos integrantes das escolas, levar esses temas à Avenida é um ato de resistência e afirmação cultural.
Pesquisadores e sambistas destacam que o samba nasce diretamente das matrizes africanas, o que torna natural essa conexão entre Carnaval e ancestralidade. “As escolas de samba são herdeiras diretas da cultura africana no Brasil. Quando falam de África e de seus descendentes, estão falando de si mesmas”, afirmam estudiosos da cultura popular.
Em um país marcado por desigualdades raciais, os enredos que exaltam os povos de matrizes africanas cumprem um papel fundamental ao promover reconhecimento, orgulho e visibilidade. Assim, o desfile deixa de ser apenas espetáculo e se transforma em narrativa viva da história negra brasileira contada em forma de samba, arte e emoção.
Por: Nathalia Dias
Foto:reprodução




