Carnaval

A Sapucaí se Transforma em Quilombo de Luz: A Grandiosidade Cultural do Desfile da Paraíso do Tuiuti e a Filosofia de Ifá Lucumí

Por Redação

Na noite que entrou para a história recente do carnaval carioca, a Paraíso do Tuiuti levou para a Marquês de Sapucaí um desfile monumental, riquíssimo em cultura, ancestralidade e estética, cujo impacto ultrapassou o mero espetáculo de cores e ritmos — foi uma viagem profunda pela filosofia de Ifá e pela diáspora iorubá no continente americano.

Sob o título do enredo “Lonã Ifá Lukumí”, a azul e amarelo de São Cristóvão transformou a avenida em um território sagrado, narrando a travessia ancestral da tradição religiosa afro-cubana — uma filosofia que une espiritualidade, racionalidade e comunhão com o destino. Essa temática complexa, que explora a herança do culto ao orixá Orunmilá e a forma como essa sabedoria percorre continentes, conquistou o público não apenas pela profundidade, mas pela potência com que foi apresentada em cada detalhe do desfile.

A filosofia de Ifá — um sistema oracular que orienta caminhos e destinos — ganhou vida por meio de carros alegóricos e alas que simbolizavam pontos de encontro entre culturas africanas e caribenhas, a resistência das tradições e a ancestralidade que atravessou o Atlântico. A proposta do carnavalesco Jack Vasconcelos, inspirada na obra literária de Nei Lopes, levou o público a compreender não apenas uma festa popular, mas uma verdadeira celebração da identidade cultural afro-brasileira e afro-cubana.

Fantasias e Detalhes Visuais de Encantar

O espetáculo visual foi de tirar o fôlego. As fantasias, meticulosamente elaboradas, traziam campos simbólicos ricos em cores, texturas e referências ancestrais, destacando figuras mitológicas, elementos sagrados e expressões de fé. O reino vibrante das cores e o acabamento artístico das roupas da bateria, alas e destaques deram a sensação de que cada passo era uma oferenda à tradição que a escola celebrava.

A rainha de bateria, Mayara Lima, mais uma vez iluminou a avenida, incorporando com graça e força a energia do enredo, mostrando que a união entre coreografia e samba pode traduzir espiritualidade em movimento.

Música, Bateria e Ritmo: Alma do Quilombo da Sapucaí

O samba-enredo, considerado um dos maiores destaques da temporada, contagiou a Sapucaí desde o primeiro compasso. Com letra que evocava Ifá, axé e ancestralidade, a música ecoou como um hino de resistência e celebração, unindo comunidade e plateia num rito coletivo de alegria e reconhecimento histórico. A bateria — comandada pelo mestre Marcão — marcou presença com precisão e energia, transformando o desfile em uma experiência sensorial completa.

Entre Problemas Técnicos e o Brilho Cultural

Mesmo com alguns contratempos nas alegorias e na evolução da escola, que devem impactar a avaliação técnica dos jurados, o que ficou na memória foi o propósito cultural e emocional de um desfile que ousou falar de filosofia religiosa, diásporas e resistência com a mesma intensidade com que bate o coração do samba.

Um Carnaval que Ecoa Além da Avenida

O desfile da Tuiuti em 2026 não foi apenas um desfile  foi uma aula viva de história, fé e resistência cultural. Ao trazer à avenida uma filosofia ancestral sob as luzes do sambódromo, a escola reafirmou que o carnaval é, antes de tudo, um rito de resistência e memória, onde a grandiosidade cultural se mistura à beleza estética de fantasias, cores e ritmos que só o carnaval brasileiro é capaz de conjugar com tanta potência.

Matéria: Nathalia Dias

Jornalista responsável: Edinho Meirelys

Foto: Nathalia Dias

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