Carnaval

Portela 2027: samba-enredo “Ao Mestre, com Carinho” transforma a memória de Monarco em celebração à ancestralidade portelense

Por Wander Timbalada

Composição escolhida para o Carnaval de 2027 homenageia um dos grandes nomes da história da escola e reforça os laços entre samba, território e memória.

A Portela levará à Marquês de Sapucaí, no Carnaval de 2027, o enredo “Ao Mestre, com Carinho”, desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Barros e dedicado a Monarco, nome artístico de Hildemar Diniz, um dos personagens mais importantes da história da agremiação de Oswaldo Cruz e Madureira.

O samba-enredo escolhido é assinado por Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Jefferson Oliveira, Hélio Porto, Orlando Ambrosio, W. Correa e Rafael Gigante. A escolha aconteceu em 5 de setembro de 2026.

Mais do que revisitar a trajetória de Monarco, a composição propõe uma reflexão sobre o legado deixado pelo sambista e sua presença permanente na memória, na identidade e na cultura da Portela.

Uma homenagem que ultrapassa a biografia

Um dos principais méritos conceituais do samba está na maneira como a obra evita limitar a homenagem a uma simples narrativa biográfica. Em vez disso, apresenta Monarco como parte viva da história portelense, cuja influência permanece nas gerações que continuam construindo o samba.

Logo nos primeiros versos, a composição estabelece uma relação de proximidade e respeito:

“A bênção, meu velho / Chegou o momento sonhado”

A abertura cria uma atmosfera de intimidade, como se o intérprete se dirigisse diretamente ao mestre. A relação entre quem transmite o conhecimento e quem recebe essa herança cultural torna-se um dos pilares da homenagem.

Nesse contexto, a palavra “mestre” assume um significado que vai além do reconhecimento artístico. Monarco representa também a figura do guardião de uma tradição, responsável por preservar e transmitir os valores do samba às novas gerações.

O universo de Monarco traduzido em samba

A composição recorre a elementos que ajudam a reconstruir a imagem e a trajetória do homenageado: o chapéu Panamá, o cavaquinho, Madureira, Oswaldo Cruz, a Velha Guarda, a infância, a família e a saudade.

Essas referências aproximam o público de Monarco não apenas como compositor e intérprete, mas também como homem cuja história se confunde com a vida cultural e afetiva da comunidade portelense.

O chapéu Panamá, por exemplo, remete a uma das marcas visuais mais reconhecidas do sambista. Ao incorporar essa referência ao universo carnavalesco, a homenagem transforma um traço pessoal em símbolo de identificação coletiva.

A própria Portela também incorporou o chapéu Panamá à representação de sua águia para o Carnaval de 2027, reforçando a conexão visual entre o homenageado e a identidade da escola.

Oswaldo Cruz e Madureira: territórios de pertencimento

Um dos momentos mais significativos da composição está na valorização dos territórios que ajudaram a formar a identidade de Monarco.

“Pra entender tem que ter um ‘a’ / De amor, e um ‘quê’ / De Madureira na alma / Tem que ter a luz / Carregar no peito Oswaldo Cruz”

Os versos estabelecem uma ligação direta entre o sambista e os bairros que representam parte fundamental da história da Portela.

Oswaldo Cruz surge como referência às raízes e à formação cultural do artista. Madureira, por sua vez, remete à força da comunidade, à circulação do samba e à dimensão popular que caracteriza a trajetória da agremiação.

Nesse sentido, Monarco não é apresentado apenas como indivíduo, compositor ou intérprete. Sua história também representa um território, uma comunidade e uma maneira de viver e preservar o samba.

A relação entre esses espaços e a identidade portelense ajuda a compreender a importância de Monarco para a escola, cuja trajetória se construiu a partir da participação de gerações de sambistas, compositores e integrantes da comunidade.

A saudade como expressão de permanência

Na segunda metade da composição, o tom da homenagem se aprofunda e a saudade passa a ocupar um lugar central.

“Agora uma enorme saudade devora”

Em outro momento, a letra reforça a dimensão emocional dessa lembrança:

“Falar de Monarco, meus olhos vão marejar”

Os versos conduzem o samba a um território em que a celebração do legado convive com a dor da ausência. Monarco, falecido em 2021, deixa de ser lembrado apenas por suas contribuições artísticas e passa a ser evocado também pela importância afetiva que conquistou entre os portelenses e admiradores do samba.

A saudade, nesse contexto, não representa somente a perda

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