Mulheres: Guardiãs da Fé e da Ancestralidade nas Religiões de Matriz Africana
As religiões de matriz africana no Brasil têm na figura feminina um de seus pilares mais sólidos. Desde a formação dos primeiros terreiros até a preservação dos rituais, saberes e tradições trazidas da África, as mulheres ocuparam e seguem ocupando posições centrais de liderança espiritual, social e política dentro dessas religiões. No Candomblé, em especial, elas não apenas conduziram a fé, como foram responsáveis por sua própria fundação e consolidação em território brasileiro.
Em um contexto histórico marcado pela escravidão, pela violência e pela tentativa constante de apagamento cultural, foram mulheres negras, sacerdotisas e líderes comunitárias que garantiram a continuidade dos cultos aos orixás, voduns e inquices. Nos terreiros, elas criaram espaços de resistência, acolhimento e reorganização social, onde a espiritualidade caminhava lado a lado com a proteção da identidade africana.

O protagonismo feminino no Candomblé se manifesta, sobretudo, na figura das iyalorixás, responsáveis pela condução religiosa, pelo ensino dos fundamentos e pela manutenção da hierarquia sagrada. Diferente de outras estruturas religiosas marcadas pelo domínio masculino, o Candomblé se construiu como um espaço onde a mulher sempre teve voz, poder e autoridade espiritual.

Entre as grandes fundadoras da religião no Brasil, destaca-se Iyá Nassô Oká, também conhecida como Mãe Nassô, uma das principais responsáveis pela criação do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, a Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador. Considerado o terreiro mais antigo do Brasil, ele se tornou referência para a organização do Candomblé Ketu e símbolo da resistência cultural africana.
Outra figura fundamental é Iyá Adetá, conhecida como Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá. Mulher visionária, Mãe Aninha foi responsável por estruturar o Candomblé de forma mais institucional, dialogando com intelectuais, artistas e lideranças políticas, ampliando o reconhecimento da religião e combatendo o preconceito religioso.
No Ilê Iyá Omin Axé Iyamassê, o Gantois, a liderança feminina também se eternizou com Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a Mãe Menininha do Gantois. Sua atuação foi decisiva para o fortalecimento do diálogo inter-religioso e para a humanização da imagem do Candomblé perante a sociedade brasileira, tornando-se uma das mais respeitadas líderes religiosas do país.
Já Maria Bibiana do Espírito Santo, conhecida como Mãe Senhora, foi uma das grandes ialorixás da Casa Branca e responsável por manter a tradição, o rigor ritual e a transmissão correta dos fundamentos religiosos, assegurando a continuidade do legado ancestral.
Essas mulheres não apenas fundaram casas religiosas; elas criaram verdadeiras instituições culturais, sociais e espirituais. Em seus terreiros, organizaram redes de solidariedade, promoveram educação informal, assistência social e preservação da memória africana em um país que insistia em negar suas raízes negras.
Hoje, o papel da mulher nas religiões de matriz africana continua sendo essencial. As ialorixás seguem como líderes espirituais, guardiãs do axé e símbolos de resistência frente à intolerância religiosa. Ao revisitar a história do Candomblé, torna-se impossível dissociar sua existência da força feminina que o construiu e o mantém vivo.
Celebrar essas mulheres é reconhecer que o Candomblé nasceu, cresceu e se fortaleceu pelas mãos de mães ,mães de santo, mães ancestrais e mães da fé que transformaram espiritualidade em resistência e devoção em identidade.
Matéria: Nathalia Dias
Jornalista responsável: Edinho Meirelys
Fotos: Reprodução