Carnaval

NÃO EXISTE CARNAVAL SEM LIBERDADE: QUANDO O SAMBA TAMBÉM É VOZ POLÍTICA

Por Nathalia Dias

Existe uma coisa que precisa ser dita, principalmente por quem trabalha com Carnaval, samba e cultura: não existe Carnaval de verdade sem liberdade.

Liberdade para cantar.

Liberdade para criar.

Liberdade para questionar.

Liberdade para contar a história do povo.

Liberdade para falar de política.

E, principalmente, liberdade para discordar.

O Carnaval brasileiro nunca foi apenas uma festa.

É manifestação cultural, é identidade, é memória, é resistência e também é uma forma de expressão política.

O próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece as Matrizes do Samba do Rio de Janeiro — partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo — como Patrimônio Cultural do Brasil. Em 2025, esse reconhecimento foi revalidado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. (Bem Brasileiro⁠)

E quando falamos de samba-enredo, estamos falando justamente de contar histórias.

Histórias do Brasil.

Histórias de luta.

Histórias de desigualdade.

Histórias de resistência.

Histórias de personagens que muitas vezes foram esquecidos pelos livros oficiais.

O SAMBA SEMPRE FALOU

O samba nasceu e se desenvolveu dentro das comunidades, dos terreiros, das rodas, dos quintais e das escolas de samba.

O Iphan destaca que essas manifestações estão ligadas às experiências das comunidades, às tradições afro-brasileiras, à religiosidade e à própria construção da identidade brasileira. (Governo Federal⁠)

E existe uma característica que não podemos apagar: o samba fala.

Fala através da música.

Fala através da poesia.

Fala através da fantasia.

Fala através da alegoria.

Fala através da bateria.

Fala através de uma escola inteira atravessando a Avenida.

Por isso, tentar separar Carnaval de política é ignorar parte da própria história do Carnaval brasileiro.

Política não significa necessariamente partido.

Política também é falar sobre fome.

É falar sobre racismo.

É falar sobre educação.

É falar sobre religião.

É falar sobre desigualdade.

É falar sobre direitos.

É falar sobre quem tem voz e quem durante muito tempo foi impedido de falar.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO NÃO É UM DETALHE

A Constituição Federal de 1988 estabelece, no artigo 5º, que é livre a manifestação do pensamento e garante a liberdade da expressão intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença. (Planalto⁠)

Isso significa que liberdade de expressão não pode ser tratada como um detalhe quando falamos de cultura.

Porque o artista precisa ser livre para criar.

O compositor precisa ser livre para escrever.

O jornalista precisa ser livre para informar.

O carnavalesco precisa ser livre para contar uma história.

E o sambista precisa ser livre para cantar aquilo que acredita.

É claro que liberdade de expressão não significa ausência de responsabilidade. Existem limites previstos na própria legislação, inclusive direitos relacionados à honra, à imagem e à proteção contra crimes.

Mas discordar de uma ideia não pode ser confundido com proibir que ela seja expressada.

E O CARNAVAL?

O Carnaval brasileiro é justamente um dos maiores exemplos de como a sociedade transforma a arte em linguagem.

O Iphan destaca que diversas manifestações relacionadas ao Carnaval são reconhecidas como patrimônio cultural, entre elas o frevo, o maracatu, o caboclinho e as Matrizes do Samba. (Governo Federal⁠)

O órgão também registra que o frevo se constituiu historicamente como uma forma de protesto político através da música, da dança e da poesia. (Governo Federal⁠)

Então, quando uma escola de samba escolhe falar sobre determinado presidente, determinado governo, uma questão social ou uma injustiça histórica, ela não está necessariamente “misturando Carnaval com política”.

Ela está fazendo aquilo que a cultura popular brasileira sempre fez:

contando o seu próprio Brasil.

NÃO PODEMOS TER MEDO DE FALAR

E é exatamente por isso que a liberdade política também importa para quem trabalha com Carnaval.

Porque não existe liberdade cultural completa se o artista precisa pensar duas vezes antes de falar.

Não existe liberdade jornalística completa se o jornalista precisa escolher suas palavras com medo de retaliação política.

Não existe liberdade artística completa se uma obra precisa ser aprovada pelo poder antes de chegar ao público.

E não existe democracia cultural se algumas vozes podem falar enquanto outras são silenciadas.

O Carnaval precisa continuar sendo espaço de criação, crítica, humor, ironia, memória e posicionamento.

Pode ser de esquerda.

Pode ser de direita.

Pode ser de centro.

Pode não ter partido nenhum.

O que não pode é deixar de ser livre.

O SAMBA CONEXÃO DEFENDE A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Para o Samba Conexão, falar de Carnaval também é falar de democracia.

Não porque todo sambista precise pensar da mesma maneira.

Muito pelo contrário.

A beleza está justamente na diversidade de vozes.

Uma escola pode defender uma ideia.

Outra pode defender uma ideia completamente diferente.

Um compositor pode criticar um governo.

Outro pode elogiá-lo.

Um jornalista pode concordar.

Outro pode discordar.

E o público tem o direito de ouvir, questionar, concordar ou discordar.

Isso é democracia.

Isso é liberdade.

Isso também é Carnaval.

Porque o samba nasceu como voz de comunidades que queriam existir, criar, celebrar e contar suas próprias histórias.

E talvez seja justamente por isso que o samba incomode tanto quando decide falar.

Samba não é silêncio.

Carnaval não é silêncio.

Cultura não é silêncio.

E enquanto houver liberdade para cantar, escrever, criar e questionar, haverá também liberdade para contar a história do Brasil pela voz de quem vive essa história.

Matéria: Nathalia Dias

foto: Alexandre Durão

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