Religião

Ifá no Brasil: Paulo Erdibre Babalawo fala sobre tradição ancestral que atravessou o Atlântico e resistiu ao tempo

Por Redação

Apesar de muitos acreditarem que o culto de Ifá seja recente no país, registros históricos e relatos de sacerdotes mostram que a presença dessa tradição iorubá no Brasil remonta a mais de um século.

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum ouvir falar sobre Babalawos, Iyanifás — sacerdotes e sacerdotisas de Ifá — e também sobre Oluwos, títulos ligados à tradição religiosa iorubá. Para muitos observadores, a crescente visibilidade dessas figuras no Brasil criou a impressão de que o culto de Ifá seria algo novo no país. No entanto, especialistas e estudiosos das religiões afro-brasileiras afirmam que essa percepção não corresponde à realidade histórica.

Em conversa com Paulo babalawo – Oluwo Siwaju sobre o surgimento do IFÀ no brasil, tivemos acesso e ensinamentos abaixo:

Assim como ocorreu com diversos Imolé — ou Orixás — cultuados originalmente na Nigéria, como Ogun, Xangô, Oyá, Oxum, Obá, Ologunedé, Obaluayê, Nanã, Yemanjá e Oxalá, o culto a Orunmilá/Ifá também chegou ao Brasil durante o período do tráfico transatlântico de africanos escravizados.

Pesquisas e tradições orais indicam que as matriarcas fundadoras do Candomblé da nação Ketu tinham conhecimento do sistema divinatório e filosófico de Ifá. Relatos apontam que Babalawos iorubás participaram do processo de organização das primeiras casas de culto aos Orixás no Brasil, colaborando na reconstrução das práticas religiosas africanas em território brasileiro.

Diante desse contexto histórico, a ideia de que o culto de Ifá no Brasil teria surgido apenas nas últimas décadas é vista por estudiosos como um equívoco. Há registros e referências que indicam a presença dessa tradição no país há mais de 100 anos.

Por que o culto de Ifá não se expandiu como outros cultos de Orixás?

Uma das questões frequentemente levantadas por pesquisadores é o motivo pelo qual o culto de Ifá não se expandiu no Brasil com a mesma intensidade observada em outras práticas ligadas aos Orixás.

Entre os nomes lembrados na história religiosa brasileira estão José Firmino dos Santos, conhecido como Babá Oshuntadé, fundador do Axé Oloroké, considerado casa matriz do Candomblé da nação Efon no Brasil, e Rodolfo Martins de Andrade, Babá Bamgboshé, um dos fundadores do Axé Opô Afonjá, uma das mais tradicionais casas da nação Ketu.

De acordo com relatos históricos e tradições transmitidas dentro dos próprios terreiros, muitos desses sacerdotes não enxergavam Ifá como uma prática voltada para o comércio religioso, mas como um caminho espiritual que exigia estudo profundo, disciplina e responsabilidade.

Na visão desses líderes religiosos, o culto a Orunmilá estava diretamente ligado ao aperfeiçoamento do destino humano, exigindo anos de aprendizado antes que um iniciado pudesse assumir funções sacerdotais.

Por esse motivo, muitos decidiram manter o culto restrito a círculos familiares ou a pequenos grupos de descendentes, com o objetivo de preservar a tradição e evitar sua banalização. Essa postura contribuiu para que, ao longo do tempo, o culto de Ifá permanecesse menos visível ou até mesmo “adormecido” em determinadas regiões do Brasil.

O despertar contemporâneo

A partir da década de 1980, um novo cenário começou a se formar. O aumento dos intercâmbios culturais e religiosos entre o Brasil, Cuba e a Nigéria possibilitou o reencontro de muitos praticantes brasileiros com tradições de Ifá preservadas em outros países.

Esse movimento marcou um processo de reaproximação com as raízes africanas do culto, trazendo novamente visibilidade para a tradição de Orunmilá no país.

Um marco importante desse processo ocorreu em 22 de março de 1992, quando o babalawo cubano Rafael Zamora Díaz (Odu) realizou, no Rio de Janeiro, as primeiras iniciações de Ifá seguindo a tradição cubana em território brasileiro.

Desde então, o culto de Ifá passou por um processo de reorganização e expansão, tornando-se cada vez mais presente nos debates sobre religiosidade afro-diaspórica, tradição iorubá e preservação cultural no Brasil.

Mais do que uma prática religiosa, Ifá é reconhecido por muitos estudiosos como um sistema filosófico, ético e espiritual, que atravessou séculos e oceanos, preservando saberes ancestrais que continuam influenciando comunidades em diversas partes do mundo.

E por hoje dia 8 de Março dia Internacional da Mulher e a Luta por Igualdade, trouxemos um vídeo falando da importância da mulher no culto de IFÁ cubano.

Matéria: Edinho Meirelys

Entrevistado: Paulo babalawo – Oluwo Siwaju

Quer saber mais sobre IFÀ?

Entre em contato: Instagram: https://www.instagram.com/paulo_babalawo?igsh=MW82aXI1cm15ODR5dA==

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