“Oxum é mulher”: babalorixá Ulysses Alvarez comenta representação masculina da orixá na avenida e debate sobre machismo no samba
Oxum é mulher: representação masculina na avenida reacende debate sobre machismo no samba
No Dia Internacional da Mulher, episódio envolvendo representação de divindade feminina no Carnaval levanta discussões sobre religião, cultura e o espaço das mulheres no samba
No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, um debate ganhou força entre sambistas, religiosos e pesquisadores da cultura afro-brasileira: quem pode representar o sagrado feminino na avenida?
A discussão surgiu após a representação de Oxum por um homem durante um desfile de Carnaval, fato que provocou diferentes reações nas redes sociais e entre integrantes do universo do samba.

Foto: Adriano Fontes
Para alguns, trata-se de uma escolha artística dentro da liberdade criativa que caracteriza os desfiles das escolas de samba. Para outros, o episódio levanta reflexões mais profundas sobre representatividade, tradição religiosa e o espaço das mulheres dentro do samba e das religiões de matriz africana.
A polêmica também dialoga diretamente com uma discussão antiga dentro do próprio Carnaval: o machismo ainda presente nas estruturas do samba.
Oxum e o feminino sagrado
Nas religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, Oxum é uma das principais divindades femininas. Associada às águas doces, ao amor, à fertilidade e à prosperidade, a orixá representa um dos mais fortes símbolos do feminino dentro dessas tradições.
Dentro dos terreiros, inclusive, o protagonismo feminino sempre teve papel fundamental. Muitas casas religiosas são lideradas por ialorixás, conhecidas popularmente como mães de santo, responsáveis pela preservação de conhecimentos ancestrais, rituais e fundamentos espirituais.
Essa estrutura religiosa coloca as mulheres em posições de liderança e autoridade espiritual — algo que contrasta com outras estruturas sociais historicamente marcadas pelo patriarcado.
Por isso, quando representações simbólicas dessas divindades aparecem em espaços culturais interpretadas por homens, parte da comunidade religiosa questiona se essa escolha não acaba deslocando o significado do feminino dentro dessas narrativas espirituais.
O samba nasceu com mulheres
Apesar da forte presença masculina nas estruturas atuais das escolas de samba, a história do samba no Brasil tem profundas raízes femininas.
Uma das figuras mais emblemáticas desse processo é Tia Ciata, considerada fundamental para o surgimento do samba urbano no Rio de Janeiro no início do século XX.
Em sua casa, no bairro da Praça Onze, aconteciam encontros musicais que reuniam sambistas e ajudaram a consolidar o gênero que mais tarde se tornaria símbolo cultural do país.
Mesmo com esse protagonismo histórico, muitas mulheres ainda enfrentam dificuldades para ocupar posições de liderança dentro das escolas de samba. Em grande parte das agremiações, cargos como presidência, direção artística e composição de samba-enredo continuam sendo majoritariamente ocupados por homens.
Enquanto isso, as mulheres aparecem com frequência em posições mais visuais, como passistas, musas ou rainhas de bateria.
Entre arte e religião
O Carnaval sempre foi um espaço onde arte, política e religião se encontram. Ao longo das décadas, diversas escolas de samba levaram para a avenida temas ligados à ancestralidade africana e às religiões de matriz africana, muitas vezes como forma de resistência cultural.
No entanto, a representação de símbolos religiosos na avenida também levanta debates sobre limites entre liberdade artística e respeito às tradições espirituais.
Para praticantes dessas religiões, os orixás não são apenas personagens ou figuras estéticas. Eles representam ancestralidade, espiritualidade e memória coletiva.
O babalorixá Ulysses Alvarez comentou o episódio e destacou que o debate precisa ser conduzido com responsabilidade tanto no campo religioso quanto no cultural.
Segundo ele, é necessário cuidado ao representar os orixás e seus arquétipos, já que essas figuras carregam significados espirituais profundos dentro das religiões de matriz africana.
“É preciso ter muito cuidado quando se trabalha com os arquétipos dos orixás, porque estamos falando de símbolos sagrados dentro das nossas tradições religiosas.”
Ao mesmo tempo, o sacerdote também reconhece que o Carnaval possui um espaço próprio de expressão artística e cultural, onde determinadas interpretações podem surgir a partir da intenção de quem constrói a narrativa do desfile.
Na avaliação do babalorixá, a escolha de um homem para representar Oxum pode ter sido uma tentativa de explorar simbolicamente a virilidade do corpo masculino dentro de um arquétipo tradicionalmente feminino, algo que pode gerar diferentes interpretações dentro da comunidade religiosa.
Ulysses também aponta que o debate toca em uma discussão mais ampla dentro das próprias religiões de matriz africana.
Segundo ele, existem diferentes correntes de pensamento sobre a origem e organização dessas tradições. Enquanto alguns estudiosos defendem que as religiões afro-brasileiras foram estruturadas dentro de contextos sociais influenciados pelo patriarcado, outros apontam que essas tradições preservam fortes estruturas matriarcais e de liderança feminina, especialmente dentro dos terreiros.
Para o babalorixá, reconhecer essas diferentes visões é essencial para que o debate aconteça com respeito tanto à fé quanto à expressão cultural do Carnaval.
Um debate que vai além da avenida
No contexto do Dia Internacional da Mulher, o episódio ganha ainda mais significado ao provocar reflexões sobre o lugar das mulheres dentro de espaços tradicionalmente marcados por disputas de poder.
A discussão sobre a representação de Oxum por um homem na avenida não se limita à estética do desfile. Ela também levanta questões mais amplas sobre machismo, protagonismo feminino e preservação cultural dentro do universo do samba.

Pautas que o Carnaval precisa discutir
O episódio abre caminho para debates importantes dentro do mundo do samba:
* O Carnaval pode reinterpretar livremente símbolos religiosos?
* As escolas de samba ainda reproduzem estruturas machistas?
* Por que mulheres historicamente fundamentais para o samba ainda têm pouca visibilidade nas posições de liderança?
* Como preservar o protagonismo feminino dentro das religiões de matriz africana quando esses símbolos chegam à avenida?
Entre arte, fé e tradição, a pergunta que permanece ecoando é direta:
Se Oxum representa o poder do feminino, quem conta essa história na avenida — e quem ocupa esse lugar?
Matéria: Nathalia Dias
Fotos: Reprodução



